DEFESA DE TESE DE DOUTORADO – PPGH/UFRGS – 2017

No dia 14 de dezembro deste ano, finalizei uma etapa importante de minha trajetória como pesquisador: a defesa de tese de doutorado. Atualmente, vivemos a época da “fast science“, em que a investigação científica acompanha a produtividade exigida pelo capital.  Com isto, muitos trabalhos que levariam mais tempo para amadurecer, se tornam amarrados a prazos estabelecidos por agências de fomento.

Durante a pesquisa, análise e escrita de minha tese, tive a nítida impressão que precisava de mais tempo para amadurecer meu objeto. Muitos estudantes de pós-graduação e até professores universitários reproduzem a ideia de que o doutorado é só mais um trabalho acadêmico e que muitos outros virão após dele. Sim, isso é verdade. A pesquisa é, de certo modo, infinita. Porém, ao se colocar prazos padronizados a diferentes tipos de pesquisa (2 anos de mestrado, 4 anos de doutorado) já se sinaliza para banalização do conhecimento. Cada área possui especificidades, alguns mestrandos e doutorados se incorporam em pesquisas mais amplas, com instrumento técnico pesado, outros – como no caso dos historiadores – realizam pesquisas mais solitárias, com visita a arquivos e bibliotecas, tendo seus objetos tempo de maturação diferenciado. O doutorado precisa ser original e possuir uma contribuição importante para sua área de conhecimento.

 Contudo, questiono se meu trabalho, entre tantos outros, de fato conseguem cumprir seus objetivos finais, principalmente pela falta de estrutura material, emocional, técnica e profissional. Me arrisco a dizer que estamos, talvez, banalizando a própria pesquisa científica. O que não significa que todo peso de culpa deva cair sobre ombros da universidade, dos programas de pós-graduação, dos orientadores e orientados. Mas, sim, de uma política selvagem e agressiva de produtividade científica que faz parte de nossa realidade. Já é sabido por reportagens de jornais e revistas que os pós-graduandos adoecem regulamente, devido depressão, ansiedade, aumento de peso, etc. As bolsas defasadas desde 2013, também não ajudam muito. Em outras palavras, a ciência no Brasil tem declinado de qualidade, mesmo tendo aumentado em quantidade. As políticas públicas para ciência no Brasil precisam ser repensadas. Não somente ao que se refere ao investimento financeiro, mas também a sua filosofia e sua valorização.

Abaixo apresento resumo de minha tese de doutorado:

Título: DENTRO E FORA DOS RINGUES: o processo de esportivização do boxe moderno e sua difusão e recepção na América Latina: um estudo comparativo (Séculos XVIII-XX).

Orientador: Prof. Dr. César Augusto Barcellos Guazzelli

Banca:

  • Prof. Dr. Gilmar Mascarenhas de Jesus (PPGEO/UERJ)
  • Prof. Dr. Arlei Sander Damo (PPGAS/UFRGS)
  • Profª Drª Janice Zapellon Mazo (PPGMCH/UFRGS)
  • Profª Drª Cláudia Mauch (PPGH/UFRGS)

Resumo: Esta tese tem como objetivo investigar o processo de esportivização do boxe moderno na Inglaterra e nos Estados Unidos (séculos XVIII-XX) e perceber sua recepção e reelaboração na América Latina (século XX). Interessa-nos compreender qual modelo de boxe chegou a países como Cuba, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil, e como estes resignificaram uma prática estrangeira não apenas “importando”, mas reelaborando a partir de sua própria cultura de lutas. Este trabalho assenta-se numa História Social da Cultura, apoiando-se também numa perspectiva comparada. Selecionamos como lócus de análise as seguintes capitais: Havana, Santiago, Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Consideramos que suas experiências com a modernidade foram híbridas, sendo constituída por elementos europeus mesclados a cultura latino-americana. Trabalhamos com a hipótese de que após A Luta do Século, entre James Jeffries e Jack Johnson, em 1910, o pugilismo norte-americano passou por uma forte recessão, devido o título de campeão mundial dos pesos pesados manter-se nas mãos do afro-americano Jack Johnson. Neste ínterim, empresários e promotores de lutas deixaram a América do Norte e passaram a investir no boxe na América Latina. Foi neste contexto que Cuba, Chile, Argentina, Uruguai e Brasil passaram a praticar o pugilismo de forma mais sistemática. Contudo, a forma como o boxe chegou a estes países obedecia à lógica do mercado de entretenimento: o boxe espetáculo. As fontes pesquisadas foram, em grande parte, da imprensa escrita. Utilizamos os jornais Correio da Manhã (RJ), A Época (RJ), O Imparcial (RJ), Correio Paulistano (SP), A Gazeta (SP), A Federação (RS) e Correio do Povo (RS), Almanaque Esportivo do Rio Grande do Sul (RS) e Revista do Globo (RS). Esta tese está dividida em duas partes: a primeira utiliza bibliografia nacional e estrangeira, com o fim de mapear o processo de esportivização do boxe na Inglaterra e nos Estados Unidos. Os temas mais recorrentes foram: regulamentos, virilidade/força, repressão, ilegalidade, classe, nação, raça, etnia, gênero, amadorismo x profissionalismo e violência. Com isso, pudemos construir a segunda parte dessa tese, percebendo como estes elementos foram apreendidos na América Latina/Brasil a partir de fontes primárias da imprensa carioca, paulista e porto-alegrense. Defendemos a tese de que para compreender o processo de esportivização do boxe moderno é preciso entendê-lo a partir de três dimensões: as lutas tradicionais (resoluções de conflitos e acertos de contas), os sparring-match (com fins ginásticos, praticado pela aristocracia inglesa, com uso de luvas) e as prize-fighting/bare-knuckle (com mãos nuas, com apostas e repressão da polícia). Somente a partir da conjugação e inter-relação entre elas, é possível compreender a formação do boxe amador e profissional. No Brasil o boxe teve dificuldade de se desenvolver, principalmente porque a vertente profissional teve maior espaço e investimento. As comissões e federações aparecem tardiamente no Brasil (no Rio Grande do Sul, apenas em 1944), o que comprometeu o pugilismo esportivo amador, e passou uma visão violenta e bárbara do boxe que se mantém até os dias atuais.

Palavras-chave: Processo de esportivização; Boxe Moderno; Esportes de Combate; Difusão; Reelaboração

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